Quem inventou o relógio de pulso?

Leitura: 7 minutos Categoria: História & Relojoaria Atualizado em 2025 Nível: Iniciante

Hoje parece impossível viver sem ele, mas o relógio de pulso percorreu um caminho e tanto até chegar aos nossos braços: nasceu como joia da realeza, foi rejeitado pelos homens por décadas, sobreviveu a uma guerra mundial e só então se tornou o objeto prático e universal que conhecemos. E o nome de um brasileiro está no meio dessa história.

1. O relógio "perdido" de Breguet, 1810

Antes de qualquer marca suíça famosa, o relojoeiro francês Abraham-Louis Breguet já havia criado o que muitos historiadores consideram o primeiro relógio de pulso do mundo. Por volta de 1810, Breguet foi encomendado pela Rainha Carolina Murat de Nápoles — irmã de Napoleão Bonaparte — a fazer um relógio que pudesse ser usado preso ao pulso, e não guardado no bolso.

O problema é que essa peça nunca foi encontrada. Não há um exemplar físico, fotografia ou desenho técnico que comprove sua existência além dos registros de encomenda — por isso, embora seja citada como o "primeiro" relógio de pulso, ela é tratada com cautela pelos historiadores da relojoaria. É justamente essa lacuna que abre espaço para a Patek Philippe reivindicar o título quase 60 anos depois.

Breguet, 1810: primeiro relógio de pulso "documentado", mas a peça em si nunca foi localizada — sem provas físicas.
Patek Philippe, 1868: primeiro relógio de pulso com existência comprovada e amplamente documentada — por isso é o mais citado como "o" inventor.

2. 1868: Patek Philippe e a Condessa Koscowicz

Relógio de pulso antigo da Patek Philippe

O registro mais sólido e mundialmente aceito é de 1868, quando a relojoaria suíça Patek Philippe — fundada por Antoine Norbert de Patek e o relojoeiro francês Jean-Adrien Philippe — criou um relógio de pulso para a Condessa Koscowicz, da Hungria. Era uma peça de joalheria refinada, decorada e pensada como acessório de moda, não como instrumento prático de medição do tempo.

Por décadas depois disso, relógio de pulso era sinônimo de acessório feminino. Os homens continuavam fiéis ao relógio de bolso, considerado mais sério e elegante para o universo masculino da época — usar um relógio no pulso chegava a ser motivo de piada entre eles.

1868
Ano em que a Patek Philippe produziu o relógio de pulso considerado o marco oficial da invenção — quase 60 anos depois da peça (não comprovada) atribuída a Breguet.

3. Santos-Dumont, Cartier e o relógio que mudou tudo

Relógio de aviador

A virada masculina do relógio de pulso tem nome, sobrenome e nacionalidade brasileira: Alberto Santos-Dumont. No início do século XX, o "pai da aviação" enfrentava um problema prático nos seus voos — não dava para soltar os comandos da aeronave para tirar o relógio de bolso e cronometrar o tempo de voo.

Santos-Dumont levou a queixa ao amigo joalheiro Louis Cartier, que — com a ajuda do mestre relojoeiro Edmond Jaeger — desenvolveu um modelo de caixa quadrada com pulseira de couro, apresentado em março de 1904. O design, com parafusos visíveis no bezel inspirados na estrutura da Torre Eiffel, rompia com a tradição dos relógios redondos e se tornou a base da coleção Cartier Santos, comercializada a partir de 1911 e vendida até hoje, mais de um século depois.

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Estilo também era marca de Santos-Dumont: em Paris, no início do século XX, o brasileiro era tão admirado por seu estilo pessoal quanto por suas conquistas na aviação — chegava a desenhar as próprias roupas, confeccionadas no ateliê de Amélie Matisse, esposa do pintor Henri Matisse.

4. Dos salões para os campos de batalha

Mesmo com o exemplo de Santos-Dumont, o relógio de pulso masculino ainda era visto com desconfiança pela maioria dos homens — "coisa de mulher", diziam. O que finalmente mudou esse cenário foi a Primeira Guerra Mundial (1914–1918). Em combate, soldados e oficiais precisavam sincronizar ataques com precisão de minutos, e tirar o relógio do bolso em pleno tiroteio era simplesmente inviável.

Relógios de bolso passaram a ser adaptados com alças de couro improvisadas para serem usados no pulso — os chamados "trench watches" (relógios de trincheira). Terminada a guerra, milhões de homens que serviram nas forças armadas voltaram para casa já acostumados ao relógio de pulso, e o que era estigma virou símbolo de praticidade, masculinidade e modernidade.

A virada definitiva: antes da Primeira Guerra Mundial, o relógio de pulso era visto como acessório feminino. Depois da guerra, tornou-se item indispensável para qualquer homem — uma das mudanças de hábito mais rápidas e completas da história da moda masculina.
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~1810

Breguet cria um relógio de pulso para a Rainha Carolina Murat — peça nunca encontrada, hoje tratada como lenda histórica.

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1868

Patek Philippe cria o relógio de pulso da Condessa Koscowicz — o marco aceito como origem oficial do relógio de pulso.

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Mar. 1904

Cartier cria o relógio de pulso para Santos-Dumont — base da futura linha Cartier Santos.

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1911

O modelo Cartier Santos começa a ser comercializado para o público em geral.

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1914–1918

A Primeira Guerra Mundial populariza definitivamente o relógio de pulso entre os homens, com os "trench watches" usados nas trincheiras.

5. Marcas e modelos que fizeram história

Soldados usando relógios de pulso

Depois da virada masculina pós-guerra, marcas suíças e francesas correram para criar modelos voltados a esse novo público. Algumas peças se tornaram tão icônicas que continuam sendo vendidas — quase sem mudanças de design — mais de um século depois.

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Patek Philippe
1868
Primeiro relógio de pulso documentado, criado como joia para a Condessa Koscowicz.
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Cartier Santos
1904
Criado para Santos-Dumont; caixa quadrada inspirada na Torre Eiffel, vendido até hoje.
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Trench Watch
1914–1918
Relógios de bolso adaptados com alças de couro para uso em combate na 1ª Guerra.
Rolex Oyster
1926
Primeiro relógio de pulso à prova d'água do mundo, consolidando o uso prático e esportivo.
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O relógio mais caro já vendido: em novembro de 2016, um relógio de pulso da Patek Philippe foi arrematado em leilão por mais de 10 milhões de euros — o maior valor já pago por um relógio de pulso, mais de 150 anos depois da peça original ter sido criada como simples acessório de moda.

🚀 Curiosidade Extra

A história do relógio de pulso e a da aviação se cruzam mais de uma vez: o mesmo Santos-Dumont que pediu o relógio a Cartier em 1904 realizaria, dois anos depois, em 1906, o primeiro voo público de um avião mais pesado que o ar na Europa, a bordo do 14-Bis. O relógio que cronometrava seus testes acabou se tornando tão lembrado quanto o próprio avião.

6. Perguntas frequentes ❓

Quem inventou mesmo o relógio de pulso: Breguet, Patek Philippe ou Cartier?
Não há um único "inventor" indiscutível. Breguet teria feito o primeiro exemplar por volta de 1810, mas a peça nunca foi localizada. A Patek Philippe criou, em 1868, o primeiro relógio de pulso com existência comprovada — por isso é a mais citada como origem oficial. Já a Cartier, em 1904, não inventou o relógio de pulso em si, mas criou o primeiro modelo pensado especificamente para uso masculino prático, abrindo caminho para sua popularização entre os homens.
Santos-Dumont inventou o relógio de pulso?
Não tecnicamente — o relógio de pulso já existia desde 1868 com a Patek Philippe. O que Santos-Dumont fez foi encomendar a Cartier, em 1904, o primeiro relógio de pulso desenhado especificamente para um homem e para uso prático (no caso, a aviação), o que deu origem à icônica linha Cartier Santos e ajudou a popularizar o acessório entre o público masculino.
Por que os homens demoraram tanto a aceitar o relógio de pulso?
Porque, durante décadas após 1868, o relógio de pulso foi associado quase exclusivamente à moda feminina. O relógio de bolso era visto como mais sério, discreto e "apropriado" para os homens da época. Essa percepção só mudou com a necessidade prática imposta pela Primeira Guerra Mundial, quando soldados passaram a usar relógios de pulso em combate por pura necessidade operacional.
O relógio Cartier Santos ainda é vendido hoje?
Sim. A coleção Cartier Santos, inspirada diretamente no relógio criado para Santos-Dumont em 1904, continua sendo produzida e vendida até hoje, mais de 120 anos depois — um dos exemplos mais longevos de continuidade de design na história da relojoaria.

Conclusão

O relógio de pulso nasceu como joia para rainhas e condessas, passou décadas sendo evitado pelos homens e só se tornou universal depois de provar seu valor nas trincheiras de uma guerra mundial. No meio dessa trajetória está a história de um brasileiro, Santos-Dumont, cuja necessidade prática nos céus ajudou a moldar um dos acessórios mais usados no mundo até hoje — muito antes dos smartwatches reinventarem tudo de novo.

Fontes e referências