O que é o horário de verão?

Leitura: 6 minutos Categoria: História & Ciência Atualizado em 2025 Nível: Iniciante

Duas vezes por ano, milhões de pessoas em dezenas de países ajustam os relógios em uma hora — e por décadas, os brasileiros fizeram parte desse grupo. Mas de onde veio essa ideia de "criar" mais luz do dia ajustando o relógio? A resposta envolve uma piada do século XVIII, uma guerra mundial, um inglês obstinado e uma decisão brasileira que dividiu opiniões até hoje.

1. A ideia: usar melhor a luz do dia

Relógio marcando mudança de horário

O princípio do horário de verão é simples: durante o verão, o sol nasce mais cedo e se põe mais tarde. Ao adiantar os relógios em uma hora, as atividades do dia "se deslocam" para coincidir melhor com a luz natural — as pessoas terminam o expediente e ainda têm claridade no fim da tarde, em vez de precisar de luz artificial.

A lógica nasceu ligada à economia de energia: menos horas de luz elétrica usada à noite significava menos consumo nas casas e indústrias. Foi exatamente esse argumento — e não o conforto — que convenceu os primeiros governos a adotar a medida, como veremos a seguir.

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países
É o número aproximado de países que ainda adotam o horário de verão atualmente, concentrados majoritariamente na Europa, América do Norte e parte do Oriente Médio. A grande maioria dos países da Ásia, África e América do Sul abandonou a prática.

2. Benjamin Franklin e a piada que pegou fama

Retrato de Benjamin Franklin

A menção mais antiga à ideia de "economizar luz do dia" vem de Benjamin Franklin, em uma carta satírica enviada ao jornal Journal de Paris em 1784. Nela, Franklin sugeria — em tom de brincadeira — que os parisienses economizariam uma fortuna em velas se simplesmente acordassem mais cedo no verão para aproveitar o sol da manhã.

O detalhe que poucos conhecem: Franklin não propôs mudar os relógios. Ele sugeriu mudar o hábito das pessoas — uma ironia sobre a vida noturna parisiense, não um projeto de política pública. A reforma de horários como conhecemos hoje só viria mais de um século depois, e por outras mãos.

3. William Willett, o verdadeiro pioneiro

O verdadeiro idealizador do horário de verão moderno foi o construtor britânico William Willett. Incomodado por terminar suas partidas de golfe no escuro, ele passou a defender publicamente, a partir de 1907, que os relógios britânicos fossem adiantados durante o verão. Willett chegou a gastar parte de sua própria fortuna divulgando a ideia e conquistou apoiadores influentes, incluindo um jovem Winston Churchill.

Apesar do esforço, o Parlamento britânico rejeitou o projeto em 1908 e 1909, em meio a piadas e oposição do setor agrícola. Willett morreu em 1915, de gripe, sem nunca ver sua ideia se tornar realidade — a guerra mudaria isso poucos meses depois.

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Curiosidade musical: William Willett é tataravô de Chris Martin, vocalista da banda Coldplay. Há quem veja na canção "Clocks" uma referência simbólica à obsessão do ancestral pelos relógios — embora isso nunca tenha sido confirmado pela banda.

4. 1916: a Alemanha em guerra muda o relógio

A implementação oficial só aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial. Em 30 de abril de 1916, a Alemanha e a Áustria-Hungria se tornaram os primeiros países do mundo a adotar o horário de verão — o chamado Sommerzeit — como forma de economizar carvão usado na geração de energia durante o conflito. O Reino Unido seguiu o exemplo alemão poucas semanas depois, em 21 de maio de 1916, e os Estados Unidos adotaram a medida em 1918.

A ironia histórica não passou despercebida: a ideia que o inglês Willett tentou emplacar por anos só foi adotada no Reino Unido depois que o país inimigo, a Alemanha, mostrou o caminho durante a guerra.

Por que parou depois da guerra? Assim que a Primeira Guerra terminou, vários países revogaram a medida — especialmente por pressão dos agricultores, que perdiam horas de luz pela manhã para cuidar dos animais e colheitas. O horário de verão voltaria com força total durante a Segunda Guerra Mundial, sendo usado de forma permanente em alguns países, como nos EUA, sob o nome de "War Time".
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1784

Benjamin Franklin escreve sua carta satírica sobre economizar velas acordando mais cedo no verão.

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1907

William Willett começa sua campanha pelo "British Summer Time" no Reino Unido.

3
30 abr. 1916

Alemanha e Áustria-Hungria implementam o primeiro horário de verão oficial do mundo, para economizar carvão na guerra.

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1918

Estados Unidos adotam o horário de verão nacionalmente pela primeira vez — e o revogam logo no ano seguinte.

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1939–1945

O horário de verão retorna com força durante a Segunda Guerra Mundial, com o Reino Unido chegando a usar o "Double Summer Time".

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1966

Os EUA padronizam datas de início e fim com o Uniform Time Act, ainda em vigor (com ajustes) até hoje.

5. Onde o horário de verão é usado hoje

Mapa com países que usam horário de verão

O horário de verão funciona melhor em países afastados da linha do Equador, onde a diferença na duração dos dias entre o verão e o inverno é grande. É por isso que ele permanece popular na Europa e em parte da América do Norte, mas faz pouco sentido perto do Equador — onde os dias têm duração praticamente igual o ano inteiro.

🇩🇪
Alemanha
Ainda usa
🇬🇧
Reino Unido
Ainda usa
🇺🇸
Estados Unidos
Maioria dos estados
🇦🇺
Austrália
Parte do país
🇧🇷
Brasil
Suspenso em 2019
🇯🇵
Japão
Nunca adotou
🗺️
Exceção dentro do próprio país: nos Estados Unidos, o Havaí e a maior parte do Arizona optaram por não seguir o horário de verão, mesmo com o resto do país aderindo — uma decisão estadual permitida pela legislação americana.

6. A história do horário de verão no Brasil

No Brasil, o horário de verão foi instituído pela primeira vez pelo presidente Getúlio Vargas, através do Decreto nº 20.466. Os relógios avançaram em 3 de outubro de 1931 e a medida vigorou até 31 de março de 1932 — quase seis meses. Vargas justificou a decisão citando economia para o tesouro público e redução do uso de luz artificial.

Depois desse primeiro experimento, o horário de verão brasileiro teve uma trajetória bastante irregular: foi revogado e reimplantado várias vezes ao longo do século XX, com diferentes durações e nem sempre cobrindo todos os estados. Só a partir de 1985 — em meio ao racionamento de energia causado pelo baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas — é que o horário de verão passou a ser adotado de forma mais consistente, ano após ano.

1931–1932: primeira aplicação, no governo de Getúlio Vargas. Durou quase 6 meses.
1933–1948: medida revogada. Só retomada em 1949, com Eurico Gaspar Dutra.
1949–1968: aplicações intermitentes, incluindo os governos de Vargas (de volta), Jânio Quadros e João Goulart.
1985–2019: período de adoção contínua, anual, iniciado por causa do racionamento de energia hidrelétrica.
2019–hoje: extinto pelo governo Jair Bolsonaro, com base em estudo do Ministério de Minas e Energia.
Por que o Brasil parou? O Ministério de Minas e Energia concluiu que o consumo de energia dos brasileiros havia mudado: o pico passou a ocorrer pela manhã, e não mais ao final do dia como décadas atrás. Isso reduziu drasticamente o benefício do horário de verão na conta de luz, tornando a medida pouco eficaz para seu objetivo original.

🚀 Curiosidade Extra

Apesar de o horário de verão ter sido extinto em 2019, o debate sobre sua volta nunca desapareceu de todo no Brasil. Em anos de crise hídrica, entidades do setor elétrico e do comércio voltaram a defender o retorno da medida — não mais como economia de energia elétrica em si, mas como forma de aproveitar melhor a geração solar e eólica, que produzem mais durante o dia e poderiam suprir a demanda da hora do "retorno para casa" se o relógio fosse adiantado.

7. Perguntas frequentes ❓

Benjamin Franklin realmente inventou o horário de verão?
Não exatamente. Franklin apenas escreveu uma carta satírica em 1784 sugerindo que os parisienses economizariam velas acordando mais cedo — ele não propôs mudar os relógios. A ideia de efetivamente adiantar o horário oficial veio mais de um século depois, com o britânico William Willett, e só foi implementada pela primeira vez pela Alemanha em 1916.
O horário de verão realmente economiza energia?
Hoje, esse benefício é bem mais discutível do que era há um século. Estudos recentes em vários países, incluindo o Brasil, mostram que o padrão de consumo de eletricidade mudou — com picos pela manhã em vez do fim da tarde — o que reduz ou até elimina o ganho energético que justificou a criação da medida originalmente.
Por que países próximos da linha do Equador não usam horário de verão?
Porque perto do Equador a duração do dia varia muito pouco entre verão e inverno — em alguns lugares, menos de uma hora ao longo do ano todo. Sem essa variação sazonal de luz natural, adiantar o relógio simplesmente não traz benefício prático, por isso a maioria dos países tropicais, incluindo grande parte da América do Sul e da África, nunca adotou a prática de forma duradoura.
O horário de verão pode voltar ao Brasil?
É uma possibilidade que ressurge periodicamente no debate público, especialmente em anos de crise hídrica. Mas, até o momento, sucessivos governos brasileiros mantiveram a decisão de 2019, considerando que o impacto na economia de energia elétrica seria pequeno frente ao consumo atual do país.

Conclusão

O horário de verão nasceu de uma piada de Franklin, ganhou forma com a obstinação de Willett e só se tornou realidade graças à urgência de uma guerra mundial. No Brasil, sua história foi marcada por idas e vindas que refletem as mudanças no próprio consumo de energia do país, até sua suspensão em 2019. Mesmo fora de uso por aqui, o horário de verão continua sendo um exemplo fascinante de como sociedades inteiras podem decidir, coletivamente, "negociar" com o relógio em busca de melhor aproveitar a luz do sol.

Fontes e referências